domingo, 26 de outubro de 2014

Pensar a tradução


Por ter sido incluído nas "Metas Curriculares de Português", reproduzo aqui o artigo que escrevi para o site PNETLiteratura:
Quebra-cabeças
Vou começar por um pequeno exemplo: smile, sorrir – é o que nos diz qualquer dicionário. Então, o que fazer quando, numa obra literária, mesmo que banal, deparamos com grin, simper, smirk,  dimple, beam, sneer – todos sinónimos de smile, que em Português nos obrigam a um constante exercício de prestidigitação mental para explicar, de uma forma igualmente literária, de que espécie de sorriso se trata – com desprezo, de escárnio, zombeteiro, rasgado, aberto, de orelha a orelha, desdenhoso, radiante, ligeiro, tímido, etc.
Depois, há a visão: see – ver; mais uma vez, só a imaginação nos permite lidar com behold, note, notice, remark, espy, descry, observe, contemplate, survey, view, perceive, discern, watch, etc., partindo do verbo ver. Recorramos agora aos advérbios de modo: atentamente, pensativamente, fugazmente, meticulosamente, pormenorizadamente, etc. (não me lembro de mais nenhum...)
Há também os diversos tipos de luz: brilliant, dim, dull, dark, subdued, bleak. Sugiro, desta vez, uma explicação mais completa; que brilha, que ofusca, que é coarctada ou mais simplesmente cortada, lúgubre, triste, ténue, difusa...
É uma lista infindável. E é, em grande medida, um dos maravilhosos exercícios inerentes à tradução. A certa altura, o cérebro do tradutor automatiza-se. Na sua cabeça, cada palavra inglesa não corresponde a uma palavra em Português, mas a todo um conjunto semântico. Não é um dicionário Inglês – Português, nem é um dicionário de sinónimos; é uma torre de Babel de palavras, um puzzle com milhões de peças, que instintivamente se encaixam, sem que saibamos qual o milagre que tão depressa faz surgir a solução para a palavra que entrou pelos nossos olhos na ponta dos nossos dedos.
Eu disse: o cérebro do tradutor automatiza-se. É o que penso. Só o cérebro. Porque, depois, há as emoções, o coração, a construção e o afecto pelas personagens a ajudar na escolha. É o cérebro do tradutor que sabe que A smiled. Mas é o coração do tradutor que visualiza A a sorrir e sabe exactamente o que A estava a pensar quando sorriu e as emoções que pôs nesse sorriso.

A tradução não é uma actividade solitária. A cada novo livro que traduz, o tradutor mergulha num novo universo – e afeiçoa-se tanto a ele que, no fim, tem pena de o deixar...

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