Por ter sido incluído nas "Metas Curriculares de Português", reproduzo aqui o artigo que escrevi para o site PNETLiteratura:
Quebra-cabeças
Vou
começar por um pequeno exemplo: smile, sorrir – é o que nos diz
qualquer dicionário. Então, o que fazer quando, numa obra literária, mesmo que
banal, deparamos com grin, simper, smirk, dimple, beam, sneer – todos sinónimos
de smile, que em Português nos obrigam a um constante exercício
de prestidigitação mental para explicar, de uma forma igualmente literária, de
que espécie de sorriso se trata – com desprezo, de escárnio, zombeteiro,
rasgado, aberto, de orelha a orelha, desdenhoso, radiante, ligeiro, tímido,
etc.
Depois,
há a visão: see – ver; mais uma vez, só a imaginação nos permite
lidar com behold, note, notice, remark, espy, descry, observe,
contemplate, survey, view, perceive, discern, watch, etc., partindo do
verbo ver. Recorramos agora aos advérbios de modo: atentamente, pensativamente,
fugazmente, meticulosamente, pormenorizadamente, etc. (não me lembro de mais
nenhum...)
Há
também os diversos tipos de luz: brilliant, dim, dull, dark, subdued, bleak.
Sugiro, desta vez, uma explicação mais completa; que brilha, que ofusca, que é
coarctada ou mais simplesmente cortada, lúgubre, triste, ténue, difusa...
É
uma lista infindável. E é, em grande medida, um dos maravilhosos exercícios
inerentes à tradução. A certa altura, o cérebro do tradutor automatiza-se. Na
sua cabeça, cada palavra inglesa não corresponde a uma palavra em Português,
mas a todo um conjunto semântico. Não é um dicionário Inglês – Português, nem é
um dicionário de sinónimos; é uma torre de Babel de palavras, um puzzle com
milhões de peças, que instintivamente se encaixam, sem que saibamos qual o
milagre que tão depressa faz surgir a solução para a palavra que entrou pelos
nossos olhos na ponta dos nossos dedos.
Eu
disse: o cérebro do tradutor automatiza-se. É o que penso. Só o cérebro.
Porque, depois, há as emoções, o coração, a construção e o afecto pelas
personagens a ajudar na escolha. É o cérebro do tradutor que sabe que A
smiled. Mas é o coração do tradutor que visualiza A a sorrir e
sabe exactamente o que A estava a pensar quando sorriu e as
emoções que pôs nesse sorriso.
A
tradução não é uma actividade solitária. A cada novo livro que traduz, o
tradutor mergulha num novo universo – e afeiçoa-se tanto a ele que, no fim, tem
pena de o deixar...
Sem comentários:
Enviar um comentário