quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A vida de 5 de Julho a 1 de Outubro

Família. Problemas. Traduções. Prazos. Impostos. (Falta de) Dinheiro. Trabalha para teres dinheiro para pagar os impostos, a casa, o carro, e ficares sem dinheiro. Enquanto traduzo o RCM de um medicamento para o cancro gástrico, um familiar morre com cancro gástrico. Imagino a doença, avançada, não ressecável, as metástases a espalharem-se. E Pum! Morre. As emoções vêm à tona, bem como as recordações de mortes anteriores e as juras que fiz de que ia mudar de vida a partir daí. E não mudei. Família. Problemas. Traduções. Prazos. Impostos.
Depois chega Agosto. É agora que vou mudar. Mas não. Fico deprimida, triste, a tremer e a trocar as letras. As palavras não saem, ou demoram muito mais tempo a sair. Agora, para me animar, a tradução é de um livro escrito pela mãe que perdeu um filho. E Pum! Como é que aquilo sai de uma pessoa a quem as palavras não saem, ou demoram muito mais tempo a sair? Um mês de sofrimento. A malta a ir para a praia, e eu a trabalhar. A malta a ter férias, e eu a trabalhar. Férias? Já não lembro o que é isso.
Setembro. Ainda a tentar subir as escadas da espiral que me levou para baixo. Bolas, mas custa à brava. Outra vez o maldito remédio para o cancro, mas agora muito mais explicadinho, para eu perceber bem o que lhe aconteceu e o que um dia pode acontecer-me. Família. Problemas. Traduções. Prazos. Impostos. Tenho mesmo de mudar. Tecnoforma, mentiras que passam a verdades por serem ditas pelo 1º Ministro e apoiadas com palmas histéricas pela maioria, cuja maioria tem a mesma desfaçatez. As palavras ajustam-se à falta de pudor, ao descaramento mais absoluto. Família. Problemas. Traduções. Prazos. Impostos. Um país podre. Sem valor e sem valores.
A 28 de Setembro o Costa esmaga o Seguro, que tanto precisava de ser esmagado, voltar à condição de militante de base e tirar aquela cara deprimente da televisão.
Talvez o país tenha cura. 
Chega Outubro, e é agora que vou mudar mesmo. Escrevo estes desabafos no blogue, faço uma caminhada. Pronto, já é qualquer coisa. Mas ainda faltam trinta dias de persistência. Mas, como o Costa ganhou, acho que talvez tudo isto tenha cura. Ah, pois é, esquecia-me. Mas não posso ter expectativas. Foi o médico e a família que disseram. Hoje em dia, expectativas são utopias. Portanto, dá uma martelada nesses miolos e usa-os para trabalhares. Porque, só se trabalhares ganhas dinheiro para os impostos.
Já sei: vou ver se deixo de pagar IVA e digo aos editores para me pagarem em "despesas de representação", a nova moeda nacional. Livre de impostos. Por baixo do tapete.
Se calhar, Outubro vai ser bom.

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